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A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR

Sobre o Autor:
Foto do rosto de RENATA MEIRELLES DIAS DE CARVALHO
RENATA MEIRELLES DIAS DE CARVALHO Educadora e pesquisadora de brinquedos e brincadeiras.


A educadora e pesquisadora de brinquedos e brincadeiras Renata Meirelles Dias de Carvalho afirma: “a brincadeira é a expressão máxima da criança”.

Por Ana Luiza Basilio

O universo das brincadeiras sempre encantou Renata Meirelles. “Na época da faculdade, quando cursava Educação Física, iniciei um projeto em parceria com uma amiga para levar brincadeiras às escolas”, relembra a educadora. Os encontros, segundo Renata, foram fundamentais para diversificar seu repertório de brincadeiras e também para despertar o desejo de compartilhá-lo com outras crianças. Envolvida em pesquisas e com a certeza de que “só se aprende a brincar, brincando”, Renata começou a viajar, propondo momentos lúdicos com as crianças dos locais por onde passava e registrando as atividades por meio de vídeos, fotografias e áudios.

O acervo de brincadeiras, no entanto, realmente “tomou corpo” após uma ida da educadora à Amazônia, em 1999, e a concretização do Projeto Bira, que tem como objetivo reconhecer a cultura do brincar nas populações ribeirinhas e promover o intercâmbio com outras comunidades.  O projeto é apenas um dos temas discutidos nesta entrevista com a educadora e pesquisadora de brinquedos e brincadeiras Renata Meirelles Dias de Carvalho, que afirma: “a brincadeira é a expressão máxima da criança”.

NET EDUCAÇÃO - Qual a importância da brincadeira no processo de ensino aprendizagem?
Na verdade, antes de atrelar a brincadeira ao ensino aprendizagem, precisamos pensá-la em prol do desenvolvimento da criança como um todo. Quando associada a uma função escolarizada, a brincadeira surge em função de se aprender alguma coisa. O que eu reforço é que brincar não tem um objetivo pronto, final, uma vez que a brincadeira, por si só, já é o objetivo; é a expressão máxima da criança, sua linguagem, a maneira como ela recebe o mundo e interage com ele. Isso não quer dizer que a brincadeira não possa ser utilizada como um meio para estimular a aprendizagem e até mesmo percepção de conceitos curriculares, como matemática, português, e desenvolver habilidades; no entanto, antes disso, a brincadeira é importante por ser estruturante para o ser humano.

NET EDUCAÇÃO - Quais habilidades as brincadeiras são capazes de trabalhar?
Todas as habilidades que o ser humano é capaz de adquirir. Uma brincadeira livre, espontânea, sem direcionamento dos adultos, permite ainda uma maior expressão por parte das crianças.

NET Educação - Quais tipos de brinquedos e brincadeiras estão mais aptos a desenvolver habilidades em crianças e adolescentes?
Não há exatamente como definir porque tudo para a criança pode ser um brinquedo. O senso de exploração dela é muito rico. Mesmo diante dos brinquedos industrializados, com regras definidas e objetivos claros, a criança consegue ir além. Acredito até que esses brinquedos, em geral, são mais pobres do que a criatividade infantil e tendem a diminuí-la com propostas muito fechadas. Diante disso, sou defensora da diminuição da quantidade de brinquedos para as crianças, até porque isso gera um grau de ansiedade de grande proporção. Com poucas opções, a criança aprende a multiplicar o uso do brinquedo, o que é muito mais saudável para seu desenvolvimento.

NET EDUCAÇÃO - É importante que as instituições de ensino reservem um tempo para o ‘brincar’? Por quê?
Na educação infantil, por exemplo, o brincar deve ter espaço garantido e permear todos os momentos, como entrada, horário de lanche, banheiro. Na primeira infância é por meio da brincadeira que se garante o surgimento de coisas realmente significativas. Atividades dirigidas e planejadas durante essa fase compõem um sistema significativo apenas para os adultos, uma vez que conseguem ter controle do que está sendo feito. A brincadeira pressupõe liberdade, espontaneidade, autonomia, questões ainda complicadas dentro de um ambiente escolar. O que também vai contra o cenário das brincadeiras é o fato das crianças serem divididas por faixa etária; quando brincam juntas, as crianças criam referência de diversidade, exploram seus limites, aprendem não só a respeitar a chegada de crianças mais novas, como a observar os mais velhos e, assim, ampliar seu repertório.

Já no Ensino Fundamental, a história da brincadeira ser utilizada como meio de aprendizado é um problema. Isso porque o adulto tem muito problema de acreditar no potencial da brincadeira por si só e o papel do adulto, quando envolvido com atividades desse tipo, é permitir que elas aflorem.

NET EDUCAÇÃO - A aprendizagem dos adultos, quando em contato com as brincadeiras, é significativa?
Quando o adulto está aberto para ouvir, trocar, é extremamente significativo. Sinto que as crianças têm necessidade de explorar as coisas mais simples possíveis. Por exemplo: em um jardim, observam as formigas, minhocas, folhas e se entregam, de fato, na exploração, na descoberta. Essas questões são vitais a todos nós, porém são as crianças que reforçam isso o tempo todo por meio do encantamento que têm pelas coisas da vida.

NET EDUCAÇÃO - Como escolher e sugerir brinquedos e brincadeiras para um determinado grupo? O que é preciso levar em conta?
É importante que o adulto sugira as brincadeiras por seu repertório e experiência. No entanto, a sugestão deve ser moldada juntamente com as crianças, pois a partir do que elas têm vontade de fazer constrói-se um repertório de brincadeiras. É assim que você fica pronto para aplicar a brincadeira correta. O leque de opções de brincadeiras é sempre muito amplo e depende de cada educador, pode-se trabalhar jogos, brincadeiras com cantigas, trabalhos artesanais, entre outros.

NET EDUCAÇÃO – Os brinquedos e brincadeiras são indicadores para o conhecimento de uma cultura? O que apontam, por exemplo?
Acima de tudo os brinquedos revelam uma criança universal, que se repete nos seus próprios movimentos. Mais do que achar as diferenças de cada região, os brinquedos ajudam no reconhecimento das igualdades entre as crianças enquanto brincam. E essa característica é própria da infância e não da cultura regional; a cultura da infância é muito própria. Há brinquedos e brincadeiras que aparecem no mundo todo, por exemplo: pião, bolinha de gude, pular corda; o que mudam são as regras, o nome do objeto e por vezes até o objeto em si e isso é cultural. Porém antes da diversidade cultural, somos todos iguais e buscamos coisas muito semelhantes e os brinquedos revelam isso.

NET Educação – Por que julga importante que diferentes culturas troquem entre si seu repertório de brinquedos e brincadeiras?
Porque as crianças se reconhecem nas diferenças. Quando uma criança entra em contato com outra que possui regras diferentes de brincar, rapidamente criam maneiras de se reconhecer.

NET Educação - Levando em consideração a aprendizagem, quais tipos de brincadeiras as famílias devem estimular com seus filhos?
A minha dica é a seguinte: que os pais comecem por aquilo que mais conhecem, fazendo um resgate da infância deles, sem a preocupação de que estejam descontextualizados. Tudo que vem dos pais reflete uma verdade para as crianças. É importante o fazer junto, de maneira que a brincadeira considere o jeito de brincar de cada um dos envolvidos. Para isso, sugiro mais momentos em áreas externas; as crianças estão cada vez mais internas e os pais são ótimos mediadores para promover tais atividades.

NET EDUCAÇÃO – O que é o projeto Bira? Quais seus objetivos?
O projeto Bira busca reconhecer a cultura do brincar nas populações ribeirinhas da Amazônia e promover o intercâmbio com outras comunidades. Para isso, uso como metodologia o brincar junto, em uma espécie de metodologia compartilhada. O que eu mais quero, com isso, é que as pessoas se encontrem pela brincadeira. Não tenho a proposta de um produto específico. O ideal é que as pessoas reconheçam que existem crianças na Amazônia e que elas são as grandes reveladoras de uma cultura extremamente rica.

Para saber mais:
Giramundo e outros brinquedos e brincadeiras dos meninos do Brasil, Renata Meirelles, Editora Terceiro Nome.

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